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sotaque de sampa, por julia lola

25.01.17

 #sotaque de sampa



Oi, chegue mais!  Fique à vontade, se aninhe, vou te contar um pouco da minha história: eu me chamo Julia e nasci em uma das maiores cidades do planeta, onde tudo acontece ao mesmo tempo. É buzina de carro, é passarinho cantando, é o agito da feira, é prédio que não acaba mais. Por todo lado, milhões de histórias a serem ouvidas. São Paulo e a sua enorme diversidade cultural bordaram uma parte importante do meu ser.



Quando pequena, fazia aula de frevo, aquele ritmo que vem de Recife, e na adolescência ia ao Maracatu tocar alfaia e rodar a saia florida de chita. Três vezes ao ano, a festa do boi me chamava. Do folclore maranhense, o Bumba meu boi chegou ao Morro do Querosene, bairro querido aqui de Sampa. Uma vez pulei carnaval com bonecos gigantes feitos de material reciclado, inspirados nos bonecos de Olinda. E muitas vezes, bebi o tal do chimarrão, bebida típica do sul do Brasil.

Do pai músico, cresci escutando samba e a mãe dançarina me levou pra dançar ciranda. E da ciranda multiétnica da minha cidade aprendi as palavras que formam hoje o meu vocabulário.

O "oxente" veio do Nordeste pra expressar surpresa, assim como o "oxi".  O "si pá" é uma gíria que nasceu aqui mesmo e é usada para substituir o "se der". "Si pá eu vou, si pá não...". Compreende? Do Maranhão veio o "pequeno", jeito carinhoso de chamar alguém. O "xero no cangote", expressão tão gostosa pra falar de uma cheiradinha no pescoço é nordestina.



Aqui em Sampa a gente também tem mania de comer as últimas sílabas das palavras. Por exemplo, parceiro vira "parça" e responsabilidade vira "responsa" Também usamos o "mó" para falar "muito", por exemplo, "mó cota" (muito tempo).



Dessas palavras que viajaram de boca em boca até chegar a mim foi crescendo uma vontade danada de cair na estrada e ver de onde vinha cada pedacinho dessa grande cidade. E uma hora bati asas e voei, viajei com a mochila nas costas por mais de dois anos. A multiplicidade da minha terra manteve a minha mente aberta ao novo, e me fez flexível, feito acrobata de circo, e curiosa, perguntadeira.  Aprendi que não existem fronteiras e que somos todos um. 

Além das palavras que o meu vocabulário ganhou dos imigrantes vindos de todos os cantos do Brasil, eu também ganhei um vocabulário diferente vindo do movimento alternativo e espiritualizado.

Meus pais criaram um centro cultural e esse lugar me abriu as portas pro Yoga e o Reiki, e mais tarde a Astrologia, a Medicina Natural, o Xamanismo e a Permacultura entraram no meu caminho. E comecei então a falar de cura. Outras palavras novas foram chegando: txai, que significa "a outra metade de mim" e haux (uma palavra sagrada usada pelos pajés) vieram de tribos indígenas pra honrar as nossas ancestralidades.



Namastê e Haribol vieram da Índia e são saudações que entraram suavemente pela minha orelha e agora ficam na ponta da língua esperando pra vibrar feito o Om.

Aho (que assim seja) vem dos índios norte-americanos e usamos pra dizer que estamos de acordo. São palavras de um povo de paz, que não fala palavrão porque acredita que as palavras têm força e que usa a fala com gentileza e consciência.

Dessa mistura toda de culturas nasceu o meu sotaque, meu jeito único de falar e prosear. Me despeço de vocês contando que Sampa é o apelido que o Caetano deu pra minha cidade e que aqui a gente adora dar apelido, é raro chamar alguém pelo nome. O apelido, quando bem usado, é como um carinho falado.

texto e imagens por julia lola
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