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o ciclo

17.03.17

 #aline muller #belém do para #o ciclo



Sotaques propõe falar sobre verdade e afeto, sobre o que é nosso e o que é interior. Falar sobre "O ciclo", por exemplo, já enche os meus olhos de lágrimas, de tanto que me pertence. Um projeto sensível, feminino, íntimo e corajoso de uma das pessoas que mais admiro nessa vida: minha irmã 


 
Aline Müller sempre foi uma grande inspiração. Desde pequenininha eu a observava e a seguia. Cada passo que ela dava me encorajava a ir mais adiante. Talvez ela nem saiba, mas foi ela quem me salvou de morrer afogada no mundo que me era oferecido. Outro dia ela me disse: "Sabe essa linha? Esse 'até aqui'? Isso é tudo imaginário, não existe linha nenhuma, a gente pode ir até onde a gente quer ir!" Não à toa, ela assim fez.

Com 32 anos, teve coragem de olhar pra si com carinho e honestidade pra admitir que nada daquilo fazia sentido: dinheiro, apartamento bonito, 8 anos de mercado, estabilidade financeira, medo, culpa, sociedade, família, politicamente correto, nada era maior do que ela mesma!

Fotografar nada mais é do que o seu encontro com o mundo e com sua verdade, e ela foi em busca disso: ano passado, pediu demissão e foi morar em NY, numa trajetória que começou com cursos, exposições, alguns trabalhos pra marcas e artistas locais, idas e vindas de pessoas e oportunidades, perdurando até algo mais íntimo e profundo. Assim nasceu "O Ciclo" - um projeto que começou com um encontro inesperado com uma desconhecida, na sua casa no Brooklin. Era a sororidade feminina que já gritava - e que tinha muito mais pra gritar.


"Eu andava meio cabisbaixa, preocupada com a pressão de algumas decisões que se faziam urgentes e mal sabia que ao abrir a porta de casa pra Raffa, ela traria a esquina, o centro, a cidade, o mundo inteiro junto. Foi lindo e incômodo como as coisas que te fazem tirar a bunda do pudim costumam ser.  Descobrimos muitas coisas em comum, inclusive que mulher tem coisa em comum mesmo quando não tem.  Acho que mulher sofre em coletivo, a gente tem uma marca antiga na alma pela dor da outra, pelos anseios, pela liberdade ainda não alcançada nem por nós nem pelas nossas ancestrais. Dentre as tantas coisas, falamos dos nossos ciclos mensais, do sacode que nosso corpo nos dá a cada mês, da vida e da morte se apresentando ciclicamente, da possibilidade de renovação, através do sangue que prepara nosso corpo pra gerar vida. Já tinha tempo que vinha pensando nisso e, desde que passei a viver escolhendo por mim diariamente, fiquei muito mais atenta e sensível aos sinais do meu corpo. Deste então, venho matutando sobre como eu poderia trazer o poder desses ciclos pra minha fotografia, como eu poderia “ressignificar” a minha relação com o ciclo menstrual através da imagem..." Aline conta. O texto, na íntegra, você lê aqui.


As fotos e o texto atravessaram o atlântico e bateram aqui, me causando várias coisas ao mesmo tempo. Muitas pessoas próximas a mim entenderam o ensaio como algo "nojento". Em um mundo em que as propagandas de absorventes são sempre tão azuis, onde a sigla "TPM" é sempre um deboche e onde nossa menstruação é um tabu, é necessário ressignificar valores. Em uma vinda da Aline pra Belém, ela decidiu fazer uma exposição.

A Casa Oiam não só aceitou o projeto, como disponibilizou uma sala inteira e muito amor pra construir junto, e assim nasceu a "Instalação Útero". A sala foi toda pintada de vermelho, a trilha sonora imitava o som de um útero e batidas de coração e as fotos do projeto foram expostas. Meu coração, e o de tantas outras mulheres que fizeram coro nessa exposição, bateram juntos: Tereza, Aryanne, Kamila, Aline, Rafaella, Sônia, Luciana, Lariza, Liége, estavam todas ali. Inteiras. 


A força do vernissage ecoou no meu peito de forma definitiva. Dentro daquela sala respingada de vermelho, era forte, lembrava morte, lembrava sangue, lembrava vida. Me veio à cabeça a repressão que sofremos, os inúmeros feminicídios, os sonhos que abrimos mãos e, ao mesmo tempo, a renovação através do sangue, o calar e dar voz ao corpo, a purificação. Eram muitos e confusos os sentimentos que aquele ambiente me causava. Lariza Xavier, cantora paraense, fez uma apresentação visceral com "Minha Carne é Santa" e  "Mulher", composta um dia antes da exposição, depois de Lariza ter visto as fotos do projeto. 


Ela cantou e chorou, eu chorei, e muitos outros ali, que também sentiram tudo aquilo tão à flor da pele, todo aquele desejo de mulher, de ser livre e respeitada. Liége, outra artista paraense que estava na plateia, cantou com Lariza "Filho de Gal" e quando elas deram as mãos, entre o silêncio de uma palavra e outra, um imenso trovão caiu. Conexão feminina poderosa, inércia de todos diante da força daquelas vozes, cruas, sem equipamento, na capela, clamando por liberdade, por união, por reciprocidade. 
 

Através do olhar sensível da fotografia, questões internas foram despertadas e laços se fizeram. Potência da poesia que somos, ao dar passe livre ao que sentimos. Irmandade e admiração que sinto por minha irmã, e que senti também pelas mulheres que estavam presentes, pelas tantas vozes que tomavam frente, e que reverberava em todas nós, juntas. 

As lições que ficaram desse dia, sobre o magnetismo e a força do feminino, eu nunca vou esquecer.

Pra saber mais da Aline, corre aqui!
Créditos das fotos - tereza&aryanne fotografia @terezaearyanne


 
 

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