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logo eles, não recomendados

29.05.17

 #não recomendados



Eles têm atitude poética. Um gênero oscilante. Brincam com os quadris e com as vozes. As palavras aparecem escrachadas. O deboche acontece naturalmente. E é tudo incrivelmente atrevido e lindo. Falamos do Caio Prado, do Daniel Chaudon e do Diego Moraes, os meninos que brilham no Não Recomendados
 
Foto: André Hawak 

Conversamos com eles numa tarde, ao telefone. O papo voou fácil e, às vezes reto, às vezes subjetivo, deu pano pra uma narrativa cheia de sutilezas. Eles passearam pelo que é marginal, excluído e pejorativo e abordaram do opressor ao oprimido.

A gente só agradece. 

-  Como a história de vocês se encontrou?
Caio: O Diego conhecia o Daniel e eu conheci o Diego num programa de reality musical. Depois nos reencontramos no Rio. Eu morava em Botafogo, o Diego começou a morar comigo e o Dani era agregado. A gente começou a cantar “Não Recomendados" (vem ouvir aqui) muito em saraus, que é uma música minha e ganhou identificação quando nós três começamos a cantar. As pessoas começaram a chamar a gente de Não Recomendados. Íamos a festas juntos, fazíamos tudo juntos. Temos convivência de amigos mesmo, mas não pensávamos ainda num projeto.  Depois desse tempo juntos, o Diego voltou pra São Paulo, o Daniel e eu morávamos no Rio... Num aniversário do Diego, montamos um show e começamos a fazê-lo com músicos de SP. 

- Como foi isso? 
Foi em Piracicaba numa churrascaria chamada Primo Luiz, a gente tinha a ideia de fazer um show sem amarras, se transvestindo, mostrando ao publico tudo o que tivemos de vivência, que somos gays bem resolvidos, politicamente com consciência, entendendo toda questão homofóbica. Era levantar a bandeira da música, da liberdade, do não preconceito, que é representado pelo que fazemos no palco. Depois desse show, fizemos shows laboratoriais e aí começamos a criar uma identidade. Fizemos o 1º espetáculo, em 2014, no Teatro Ipanema, um musical com várias referências das artes e participação do Johnny Hooker. De lá pra cá, temos convidado vários artistas. O show tem dois atos, no primeiro focamos em referências musicais mais antigas, como Gil e Chico, e no segundo trazemos axé, outros gêneros musicais, um balaio. Não temos um público específico por conta do repertório e pelo que a gente faz no palco. Temos idosos, héteros, crianças, gays. 

- Como foi a construção da identidade de vocês como grupo. É quase um manifesto, né?
O Diego, do interior de São Paulo, vivendo a musica e a arte que ele acreditava lá, uma ovelhinha negra, resistindo aos seus meios. Eu, no meu espaço, nascido em Realengo, no subúrbio do Rio, negro, gay. Daniel, que veio de Brasília pro Rio também resistindo. Todos nós tivemos legítimas situações de vida que foram fundamentais pra entender nossa consciência e a música como uma comunicação social, tentando refletir coisas que a gente discute. A gente vê além da música. É um show de amor, claro que não é um show só manifesto, mas temos coisas muito fortes, muito bem resolvidas nesse grito, nesse manifesto de liberdade que também é politico. Entendemos a música como protagonista na nossa história, tentando refletir algo além do entretenimento. É sempre muito laboratorial. Temos um momento muito claro no Brasil, uma crise política grande. Viemos de um golpe
 
Foto: Meduzza 

- Segundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia, a cada 25 horas, um LGBT é morto no país. O projeto de vocês é um grito. Até aonde vai essa consciência e onde o trabalho ganha corpo? 
Daniel: A gente se propôs a fazer um movimento de conscientização pras pessoas se questionarem em relação a esses vícios de preconceito e falarem sobre isso. Canções de resistência. O discurso é se empoderar de você mesmo de maneira harmônica e com respeito, sem se impor de maneira agressiva. O show se propõe a exalar a liberdade que a gente acha que tem, mas vivemos num sistema que fica podando a gente. Nosso corpo é um templo. É um trabalho espiritual. O que propomos é trazer a consciência do amor, do diálogo, da amizade nossa que se deu naturalmente, da liberdade. É a vida como ela é. O show traz a marginalidade, traz a solidão das pessoas que não tiveram o privilegio. Estamos tentando representar. 

- Como rola o trabalho autoral? 
A gente tá há um tempo sem compor, temos carreiras independentes e estamos tentando acertar. Ficamos semanas grudados, criando intimidade, pegando o que a gente quer comunicar, não tem compromisso. Aproveitando o tempo, o tempo que as coisas estão efervescendo. Precisa existir a luta. O grito. A música é um hino. 

- Além da voz, vocês têm o recurso estético forte, os símbolos femininos, a roupa, o batom.... 
O segundo ato tem uma coisa mais debochada. Cada show a gente tenta trazer uma questao no figurino. A gente pensou numa coisa mais bagaceira de carnaval, que tá virando um glamour. O show permite isso. 

Pra saber mais sobre os meninos, fica de olho na página do Facebook e assiste aos vídeos pelo canal no Youtube. É obvio: de não recomendados só têm o nome. Curtimos o papo. Curtimos o manifesto. Curtimos a liberdade de ser e de se manifestar através da própria essência. 

A liberdade cura! 
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