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bunda dura não treme

10.04.17

 #bunda dura não treme #claudia bar #curitiba #sotaques



Que mulher nunca se sentiu desconfortável com o seu próprio corpo? Centímetros a mais, centímetros a menos. Muito disso, pouco daquilo. Que mulher, também, nunca se sentiu desconfortável com as suas próprias ideias? Sonhadora demais, confiante de menos. É tanta gente dizendo como se deve ser, o que se deve fazer, que caminho seguir, que vontades satisfazer, que acabamos perdendo o contato com nós mesmas.

Ainda bem que podemos contar com a nossa natureza criativa pra ressignificar situações e reinventar a nós mesmas. Quando ouvimos a nossa intuição, temos respostas reveladoras e nada do que vem de fora é capaz de nos atingir. Uma prova disso é o BDNT (Bunda Dura Não Treme), um grupo de dança livre de Curitiba criado pela Jade Quoi em 2015. 


Há uma semana, fui pra capital paranaense fazer um curso e aproveitei o embalo pra conhecer a Jade e a Andressa, uma das alunas do BDNT, pessoalmente. A gente se encontrou no Botanique, um café + bar + plantas que eu bem que gostaria que fosse minha segunda casa! 


Jade é estudante de psicologia, mas a dança sempre fez parte da sua vida. Anos antes de fundar o BDNT, ela foi pra Barcelona estudar dança. Chegando lá, foi bastante desencorajada a seguir adiante e sofreu até mesmo boicotes, sabe?  "As aulas de dança tradicionais são muito voltadas à perfeição. Você fica se desgastando pra aprender, ao invés de aprender de uma forma mais leve e divertida. Quando estamos numa aula tradicional não estamos expressando quem somos, e sim, reproduzindo passos, muitos deles além do nosso limite corporal", conta. 

Quando voltou pro Brasil, começou a trabalhar como dançarina no Paradis, uma balada alternativa de Curitiba. Três meses antes, fez uma lipoaspiração e uma cirurgia de redução da mama, acreditando que, se fosse mais magra, teria mais conquistas na sua profissão. Com o tempo, Jade se redescobriu e percebeu que muitos dos valores transmitidos não eram seus, mas dos outros: "Eu comecei a amar o meu próprio corpo, a sentir, a perceber meu próprio tamanho e como eu ocupava meu espaço".


Dez meses depois, ela teve contato com o feminismo e se reconheceu neste contexto. Este novo despertar fez com que ela entendesse o seu papel no mundo, percebendo, pela primeira vez, que gostaria de dar aulas. "Fiz um convite num grupo feminista de Curitiba no facebook. Eu queria fazer uma aula divertida, algo construído por nós. A ideia era a cada semana escolher um tipo de dança ou uma música diferente pra ser trabalhada. Cerca de 30 meninas demonstraram interesse, aí partimos desse grupo pra outro e, assim, nasceu o BDNT. Tudo surgiu entre nós e foi sugerido pelas alunas, nada foi imposto por mim”. 

Aliás, o nome do grupo foi decidido em conjunto durante uma das aulas, partindo de uma brincadeira de uma das alunas. Afinal, pra fazer parte do BDNT, ninguém precisa ter a bunda perfeita
 

A dança é uma forma de expressão tão poderosa que manifesta não apenas as vontades do nosso corpo, mas também do nosso espírito: “Eu percebi que muitas das alunas que tinham projetos engavetados, os colocaram em prática depois que começaram as aulas. Tem também alunas que terminaram relacionamentos por perceberem o quanto eram abusivos, depois de tantas conversas sobre o assunto entre a gente”. 

Pra Jade, as mudanças não começam pelo corpo, mas em aceitar quem você é. A Andressa concorda: “Nós precisamos nos acolher quando não estamos bem. A gente fica tentando abafar, mas quando chegamos lá (nas aulas), sentimos isso e colocamos pra fora. É importante”.


A marca registrada do grupo é um short preto, com as letras BDNT, em branco, bem grandes na parte de trás. Chama a atenção? Chama, sim, senhorx -  e é pra chamar a atenção mesmo! É pra mostrar que as meninas que fazem parte do grupo são donas de si mesmas. São confiantes, têm uma boa autoestima e o mais importante: não estão sozinhas. 

No final do ano passado, o BDNT lançou um documentário contando como surgiu o grupo, além de depoimentos das alunas, compartilhando suas experiências e visões de mundo. 
 

Aproveitei a conversa pra perguntar pra Jade e pra Andressa que outras iniciativas de Curitiba todo mundo tem que conhecer. Elas me indicaram 2 mulheres com projetos incríveis: a Babi Oeiras e a Manu Godoi. “A Babi e a Manu produzem uma festa juntas, a "Até o Caroço", que preza o respeito na pista e diz não ao assédio. Esse rolê das duas é muito f*da! A Babi também tem uma outra festa, a “Um Baile Bom”, que é uma celebração da identidade negra". A Jade também me contou que a Manu tem outros três projetos: o Banguê, um evento gratuito de hiphop; o EmpoderA, um movimento político social que empodera mulheres através dos cinco elementos do hiphop (rapping, breakdance, graffiti, djing e beatboxing);  a loja Rimma e a festa Moio

Sim, a capital paranaense tem uma cena de hiphop muito forte. Mas, antes de sair dançando por aí, é bom prestar atenção no significado das letras, já que é bem comum encontrarmos músicas que difamam as mulheres e as tratam como meros objetos. Quando eu vou escolher uma música pra a gente dançar no BDNT, eu sempre presto atenção na mensagem que está sendo transmitida”.


Hoje 80 mulheres, divididas em 3 turmas, fazem parte do grupo. Além disso, Jade já esteve no Rio e em Floripa dando aulas. A próxima cidade a receber o Bunda Dura Não Treme será São Paulo, no dia 12, onde o grupo irá se apresentar no Cine Olido às 19h30 e, no dia seguinte, às 20h, vai rolar um aulão na casa do IdeaFixa

Ah, e tem mais! A Jade me disse que ela pretende ir ainda pra outras cidades e outros países. Do lado cá, eu espero que o BDNT conquiste o mundo. 

Fotos: Claudia Bär e arquivo BDNT.


 
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