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FARM entrevista: Rincon Sapiência

03.11.17






O cara tem borogodó e, de quebra, é um dos nomes mais falados esse ano no quesito música boa e papo reto. O rapper paulista Rincon Sapiência, grande vencedor do Superjúri no Prêmio Multishow 2017, trocou uma ideia com a gente sobre rap nacional, do calor brasileiro e a criação do conceito de afrorap. É sobre resistência.



No seu disco “Galanga Livre”, você diz que a cultura do MC ainda vive. O que é essa cultura pra você? 
A cultura do MC é a cultura do mestre de cerimônias. Acho legal a gente conseguir expor algo fazendo rap, que seja maior do que falar do nosso estilo de vida, e do que a gente comprou e conquistou. Muitas vezes o personagem é o mais cativante, que faz as pessoas se identificarem com determinados artistas, mas acho legal também as pessoas criarem uma identidade com o artista a partir da habilidade e da capacidade que ele tem de rimar e de criar coisas, e de ser autêntico e vanguardista. Então, quando falo de manter a cultura do MC viva é colocar a pauta, talvez, mais determinante do rap, que é a qualidade de fazer rima, em primeiro plano mais do que qualquer outra coisa que envolva nosso trabalho.
 
Quando você começou a ter consciência do som dos tambores, da ancestralidade, do sangue derramado nisso tudo?
São coisas que sempre gostei, sempre me identifiquei com manifestações afro que partem do samba, da capoeira. Mesmo não jogando, sempre assistia às aulas e participava das atividades na praça onde morava. E também as religões de matrizes africanas. Tinha um grande amigo de escola, ainda criança, no primário, ele era ogã e me explicava os toques – isso já fez eu me apaixonar. Quando eu passei a ter domínio sobre minhas produções e pesquisas, passeia a aplicar isso nas minhas músicas e criei esse conceito que chamo de afrorap.
 
Seu disco tem nome de 'galanga livre', inspirado na história de 'Chico Rei, escravo, o 'rei do congo'. É simbólico também porque ainda vivemos nessa estrutura de 'casa grande/senzala' moderna. Ele abre os portões...
No caso, o Galanga é um personagem que eu criei. Cheguei nesse nome Galanga por ser o nome de Chico Rei, então tenho uma observação em relação a contar a história sobre escravidão porque muitas vezes a impressão que dá é que o único período que o continente africano viveu foi a escravidão, quando na verdade existiam outras civilizações e sociedades, não só a egípcia, mas outras muito grandes e poderosas que tinham reis e rainhas. Achei importante contar esse tipo de história, então mesmo falando sobre um personagem que é um escravo, pra colocar um nome nesse personagem que eu criei eu escolhi um nome de um rei, justamente pra não se perder esse tipo de memória sobre sermos rainhas e reis antes do período de colonização e escravidão.
 


Você tá no corre há tempos, mas depois da sua viagem à África rolou o clique na mente de que a sua essência tava mais perto do que imaginava. Era a ideia de misturar os ritmos brasileiros e afros. O coco, a capoeira, o afrobeat, o hip hop... Como foi isso?
Sempre fui apaixonado pela cultura afro e quando tive a primeira oportunidade de sair do Brasil foi justamente pro continente africano , Senegal e Mauritania, que já foi uma benção enorme, e ali eu identifiquei que o que eu tinha de referência afro já chamava muita atenção musicalmente, pela postura no palco, pela dança, pelo movimento... E mesmo sem eles entenderem o idioma que eu cantava eles se identificavam muito. Então eu voltei pro Brasil muito determinado a usar e a explorar essa linguagem, já tinha algumas músicas prontas sem destino, então filtrei algumas e fiz o EP “SP Gueto BR” e depois que lancei, em 2014, me vi com os caminhos abertos pra fazer meu primeiro álbum e pra trazer essa linguagem afro pra minha música e sem dúvida essa viagem foi o divisor de águas no que diz respeito a me construir como artista.
 
Além da musicalidade, a religiosidade vinda de lá também está na sua vida?
Sim, de muitos anos pra cá, já que não sigo nenhuma doutrina específica, como minha única e exclusiva orientação espiritual, mas tenho influências diversas passam por minha espiritualidade e pela africanidade, principalmente quando sigo as orientações da umbanda, que é onde frequento mais se tratando de religião afro. Conheço pessoas com uma devoção e entrega muito maior... Sou um cara que, por enquanto, tem feito as coisas no meu ritmo, no meu tempo... Até mesmo pela demanda grande de trabalho e por uma necessidade, to passando a me organizar, dentro de trabalho, família, rotina... colocar um espaço melhor pro cuidado da minha religiosidade e minha espiritualidade. Tenho fontes que me influenciam de várias fontes – da cultura rasta ao Hare Krishna.
 
Teu disco fala de muitas questões que são cheias de camadas e dá um trabalho a gente se preparar pra verdadeiramente retirá-las uma a uma. Hoje, fala-se da ideia da arte como pedofilia quando uma criança vai acompanhada do responsável a uma exposição, mas não se fala da realidade que existe aqui do lado, que é a exploração sexual de menores no nordeste, que são crianças convivendo com violência desde cedo etc. Lutamos por representatividade, mas uma mulher é tirada do poder. Uma, duas, mil... A liberdade está sempre em voga. Parece que às vezes a gente fica sem saída, né?
Eu diria que a liberdade é uma das demandas que as pessoas mais procuram na atual sociedade de hoje. A sociedade é muito diversa, multicultural. Essa diversidade se encontra, aqui no Brasil, num território indígena colonizado por europeus trazendo africanos como mão de obra. Então, já estamos falando de três regiões e três culturas e tudo isso junto. A diversidade passa pela orientação religiosa, sexual, passa pelo gênero, pela cor, pela etnia. O mundo tá muito mal equalizado no que diz respeito a isso. Existe uma verdade “branca”, no qual o que não é branco não é bonito, não é legítimo. Existe uma verdade “cristã”, e o que não é cristão é questionado. Existe uma verdade “heterossexual” e o que não é masculino ou hetero passa a ser questionado. Então, a gente precisa matar esse senhor de engenho que vem privando a liberdade de várias formas – no que diz respeito a gênero, a educação religiosa, sexual e tudo mais. Uma das propostas que trouxe no álbum é a derrubada desses valores que privam nossa liberdade, pensando na diversidade que é a sociedade no mundo.
 
Como foi o processo criativo do disco?
Meu processo criativo foi bem massa, levou muito tempo, mas foram camadas, né? São processos. No princípio foram músicas, simplesmente. Tá vivendo, ouve uma música... pensa “vou samplear isso”. Aí você sampleia, começa a arranjar em cima e vira um instrumental. Daí, “preciso falar de certa coisa”. Ai você escreve, vira uma música... Você entra em outra onda, de pesquisar outras coisas e você chega na Ciranda de Lia de Itamaracá e vira uma batida bem interessante. Aí depois dessa batida você cria uma letra e vira uma música... o “Moça Namoradeira”. Em princípios eram coisas que eu fazia de forma despretensiosa e depois passou a ter uma necessidade de fazer um álbum. Tinha umas 20 faixas pra ouvir, escolher e pensar, fiz a seleção e chegou o William Magalhaes como coprodutor e diretor do disco, e ele foi determinante pro resultado final e melhor qualidade dos timbres, considerando que gravei tudo no meu quarto, cheio de limitações técnicas. Pra chegar num nível mais bem apresentável passamos por essa coprodução do William, que foi excelente, e tivemos um disco que eu acredito que é bem relevante e que vai ficar aí, vai ter uma durabilidade grande... pelo carinho e cautela que a gente teve!

Falar com o cara foi demais. Ele já é icônico! Pra ficar de olho na agenda, cola aqui. Vai ter show no Rio e em Sampa por agora, ó! 
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