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mulheres com sotaque: Dona Onete

16.03.17

 #dona onete #musica



Não é fácil entrevistar quem se admira tanto. Desde que ganhei de presente um vinil de Mestre Cupijó, o carimbó virou um novo vício e junto dele, sua rainha, a paraense Dona Onete.

O que ocupava a vitrola de casa se personificou pela primeira vez no vozerão de uma mulher apaixonada e apaixonante em um show na capital paulista. O frio no centro de São Paulo não desanimou ninguém de cantar bem alto: “meu coração é um brechó”. Até as moças mais tímidas arrumaram um “moreno morenasso” pra se esquentarem.



​De lá pra cá, a conheci de perto comendo um pato no tucupi no Pará. Lá, o show foi uma aula de dança. Vesti minha saia mais rodada e arrastei os pés na areia para imitar os passos de carimbó.  Mês passado, foi a vez de vê-la em terras cariocas, junto ao conterrâneo Felipe Cordeiro. A FARM estava lá apoiando 'Queremos Tropical', evento animado que fez tremer o Rio!

“Já ti vi ao vivo lá no Pará”, começo nosso papo, contando que estivemos em pesquisa no Festival das Águas, em Alter do Chão, no final de 2016. Não só a ouvimos cantar como presenciamos uma parte de sua fala sobre a importância da preservação do rio Tapajós, que beira a cidade paraense.
 
“Eu achei muito importante o Festival das Águas. Como eu tenho curso de defesa civil, eu fui cantar pelo Tapajós e por todos os rios, inclusive o Doce. Eu sou antenada em tudo isso, não só em cantar”.



É verdade. Pouco se fala sobre Ionete Gama, a professora de história e militante. Foi em Igarapé-Miri onde ela fundou diversos grupos de dança e música regionais. E apesar de “ter nascido cantando”, como conta, foi só depois do fim de um casamento abusivo de 25 anos que ela libertou sua voz. Abraçou o carimbó de vez e fez dele seu amor.
 
“Eu canto bolero, outras coisas. Mas o carimbó ainda não era patrimônio imaterial brasileiro e agora é. Eu ajudei para que isso acontecesse. Cantei no Brasil todo e até lá fora. Carimbó é um dos ritmos mais primitivos que temos no Norte. E eu dei meu sotaque a ele; o carimbó chamegado é quando eu canto sobre o amor”.



Meu encanto por Dona Onete sempre foi por esta voz que ecoa a resistência pela cultura:

“As pessoas cantam mas, muitas vezes, não fazem uma letra que fale de coisas importantes e que ajudem a disseminar coisas boas. Eu vivi grandes amores e superações, por isso, eu nunca vou gritar palavras que não sejam de amor”.



Eu queria passar dias a fio a ouvindo contar sobre seus amores. Mas Dona Onete generosamente me roubou o tempo (e o coração inteiro) me dando uma aula sobre a minha própria cultura. Sou mineira e ela fez questão de cantar uma música sobre uma das ervas que ela adora e levou de Minas para o seu quintal: o ora-pro-nóbis.  Obrigada. Te ouvir é uma escola, querida professora! <3


Por Ana Luiza Gomes, perguntadeira e pesquisadeira aqui na FARM. Realizou um sonho ao fazer esse entrevista e conhecer uma das mulheres que mais a inspira. 


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