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mas que calor

09.02.18



Carnaval é coisa séria por aqui. A gente se joga nos blocos, vira noite, investe nas fantasias, antecipa os dias no Saara - mercado popular no centro do Rio de Janeiro - e faz amigos, amor e muita música. Carnaval é sobre a liberdade de ser quem quiser ser. É sobre ocupação do espaço público. É sobre deslocar rua de um lugar de trânsito para um lugar de estar. É sobre observação, sobre contemplação, é sobre se bastar. Ah! E é sobre respeito. Sobre muito respeito. E é sobre música - coisa que a gente também gosta pouco! 

E aí pra deixar a brincadeira ainda melhor, convidamos o músico e produtor musical Pedro Amparo, que é maestro de bateria do Agytoê, um dos blocos de carnaval que mais fazem a alegria da galera no Rio, e pesquisador de ritmos populares há mais de dez anos, pra criar pra gente uma playlist cheia de borogodó inspirada na folia. 

Conversamos com ele sobre o processo criativo e a escolha das músicas que passeiam de maracatu rural a pagodão baiano. Vem ler!

// clica aqui pra ouvir a play! 



- Como foi o processo criativo da playlist?
Meu objetivo com a playlist era mostrar a diversidade do carnaval e de certa forma contar sua história. Passando pelos sambas, o samba de coco, a sambada de maracatu, a roda de samba, o samba reggae e os toques das escolas de samba. Parece engraçado como os ritmos se misturam e se completam, como do samba podemos chegar ao funk, como passamos pelo carimbó. O objetivo dessa playlist era mostrar que assim como o carnaval está em todo lugar, a FARM também poderia ter uma playlist assim, já que está em todo Brasil! 

- A playlist conta com vários ritmos populares, quais foram os ritmos e como é a sua relação com eles?

- Escolhi ritmos que gosto, não acredito num projeto de playlist sem as minhas escolhas pessoais. Quis mostrar que as musicas falam a mesma língua, falam de esperança, de felicidade, elas veem a vida com uma certa leveza e paz de espírito. Nessa playlist, eu começo com um maracatu rural, onde temos duas pessoas versando sobre fazer festa, sobre brincar carnaval. Depois passo para o samba, o samba clássico das escolas de samba. Depois começo a misturar e a mostrar que as bases de tudo estão conectadas. Eu passo do ijexá ao carimbó, do funk ao samba reggae, a experimentação da música eletrônica ao frevo. Chego no samba reggae pelo maracatu, falo de axe músic também. Passo pelas fanfarras , pela timbaladada e pelos blocos afro. Minha relação com esses ritmos é afetiva. Com esses toques e ritmos tenho uma relação de adoração e aprendizado. Eles mudaram minha vida, me sustentaram de certa forma e ajudaram a formar minha personalidade.

- Como é a sua relação com o carnaval de rua do rio?
Minha relação passou de folião para agitador. Nunca tinha pensado em fazer carnaval, mas tocar nele me fez aprender mais e mais sobre como as pessoas agem, pensam e sentem essa festa. Quando começei a trabalhar no carnaval minha relação mudou. Eu sempre digo que meu objetivo é fazer com que as pessoas sintam o que eu sinto quando faço música.  Amo a organização dos blocos, as pessoas na rua, as fantasias. A desorganização do carnaval tem uma paz na sua essência!! Minha relação com o carnaval é de amor!



- Você é maestro do agytoê, mas também toca em outros blocos no carnaval do rio, certo? Quais são?
Sim. Toco no Agytoê, no Maracutaia e pretendo tocar no Amigos da Onça, no Vamo Et, no Rio Maracatu e alguns blocos mais!

- Aliás, é mestre ou maestro?
A diferença é que o mestre, o verdadeiro Mestre, é uma pessoa que nasce em um ambiente de cultura, e por isso tem o poder de alterar aquela manifestação popular, inovar criar novas regras. Eu Não nasci em nenhum ambiente, eu fui colocado no meu lugar, pela aprovação de um grupo. Ser mestre é ser o total conhecedor de um ritmo. e assim poder passa-lo. Me vejo como um maestro, rearranjando as sonoridades que um bloco tem, readaptando, os sons da bateria e tentando buscar outras sensações com esse som. Então pode me chamar de Maestro!

- O movimento de carnaval de rua tem mudado. A cidade tem se transformado. Como você vê isso?
Eu vejo isso de duas formas: de primeira tenho medo do carnaval perder sua essência desafiadora, e segundo creio que a cidade, como uma pessoa, tem que se adaptar ao que o carnaval precisa. "O carnaval tem seus direitos" e as autoridades e empresas precisam se atentar para isso. Há uma busca por algo humano, verdadeiro que tem que ser ouvida. Há uma nescessidade de ser mais e o carnaval tem toda a potência para trazer o melhor de todos.

É. A playlist trouxe música e trouxe papo bom também. Curtimos a conversa e, cá pra nós, falar de carnaval é assunto que a gente curte o ano todo. Tá na nossa essência também. 

Valeu, Pedro! 
Clica aqui pra ouvir a playlist! 
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