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FARM + YAWANAWA

05.03.18

 #mulheres yawanawa #rauti




Para criar a nova coleção RAUTI, "adornos de beleza e proteção" na língua Yawanawa - batizado pelas próprias mulheres das aldeias -, abraçamos, nos conectamos e criamos a muitas mãos uma história entre a FARM e o povo Yawanawa, habitantes da região do Acre. Uma das pessoas super importantes do nosso time, a Ana Regal, da nossa equipe de estilo, contou a Revista ELA sobre a intensidade dessa viagem. Pra todo mundo seguir junto com a gente, também postamos por aqui o depoimento na íntegra da Ana ao jornalista Eduardo Vanini com fotos da Lara Dias, que está sempre presente em momentos super importantes da nossa vida e também esteve por lá!



As índias empoderadas

A estilista de calçados e acessórios da FARM, Ana regal, conta como foi viver uma imersão de 5 dias na aldeia dos yawanawa, no acre, uma experiência que a mudou pra sempre.

“Quando embarcamos nas canoas que nos levariam até os yawanawa, no extremo do acre, descobrimos que a possibilidade da embarcação virar era rotineira aos olhos de quem está acostumado a cruzar o Rio Gregório. Naquele momento, minha maior preocupação passou a ser os meus óculos de grau. Não poderia os perder. É como se pressentisse que estava prestes a ver – e sentir – uma das experiências mais poderosas da minha vida: uma imersão de 5 dias na Aldeia Mutum como parte do processo criativo do inverno 2018 da grife para a qual trabalho, a FARM.

Essa história começou há cerca de uma ano, quando adotamos “O coração é o norte” como tema da nossa coleção. A ideia era trabalhar um conceito de uma olhar para o interior e, ao mesmo tempo, reverenciar essa região do país. Logo nas primeiras discussões de como abordaríamos o assunto, entendemos que falar do Norte sem tocar na questão indígena estava fora de cogitação.



Acostumada a trabalhar com cores, desenvolvemos, inicialmente, uma narrativa que girava em torno de uma tribo imaginária que se chamava “arco-íris”. Em seguida, buscamos orientação de pessoas envolvidas com os povos indígenas e descobrimos que a etnia que mais se encaixava nessa narrativa era a Yawanawa.

Diante da sugestão, saímos em pesquisa e descobrimos que ela não poderia traduzir melhor o nosso espírito. Dentro da aldeia, as mulheres iniciaram, há alguns anos, um profundo e revolucionário processo de empoderamento. Para assumir posições que anteriormente só os homens conseguiriam alcançar, como pajé e cacique, elas passaram por todos os procedimentos espirituais e ritualísticos que esses postos exigem. Nesse caso, leiam-se isolamento, dietas rigorosas, e experiências com ayahuasca.

Durante essa preparações, as índias tinham visões que, posteriormente, foram traduzidas nos símbolos que aparecem nas pulseiras e colares confeccionados por elas. É o caso de animais, como a jiboia e a borboleta, essa última símbolo da feminilidade e que guarda a doce coincidência de ser um dos símbolos da nossa marca.



Segundo as autoras das peças, o poder dos desenhos reproduzidos é tão forte, que são os próprios acessórios que nos escolhem, ao chamar nossa atenção. Assim, entendemos que foi exatamente o que aconteceu conosco. Foram elas e suas histórias que nos escolheram.

Para estreitar os laços com essas mulheres, nosso primeiro passo foi trazer duas delas para nossa fábrica, em São Cristóvão. Uma era Júlia Yawanawa, primeira mulher a ser enviada da aldeia à cidade, anos atrás, guardando uma importante missão: ela tinha que dominar o português, a matemática e “o preço das coisas”, para facilitar as negociações e diálogos com o  homem branco. Missão dada, missão cumprida. Quando retornou, assumiu o posto de professora e começou a disseminar o conhecimento ao restante da aldeia.

Mas esse processo também acabou criando um certo distanciamento das raízes e da cultura do grupo. Júlia, então fez um resgate por meio dos rituais espirituais e da produção de pulseiras e colares. Hoje, ela é responsável por organizar as artesãs yawanawa de nove aldeias que margeiam o Rio Gregório.

No dia em que as índias mostraram seus trabalhos na nossa fábrica, nós nos vimos diante de um colorido e um degradê muito peculiares, pelos quais nos apaixonamos. Mas não era só isso; aqueles adornos carregavam muitas histórias. Entendemos, por exemplo, que mulheres de aldeias distantes umas das outras trabalham juntas na produção dessas peças, ou seja, a fabricação dos acessórios fortalece uma linda confraria feminina. Decidimos, então, incorporar o trabalho delas ao nosso. Parte do que elas produziriam, seria adicionado a sandálias, mochilas, pochetes e camisetas.



Interessadas em conhecer ainda mais os Yawanawa, uma semana depois, eu e parte da equipe de criação fomos a uma cerimônia feita por eles no Itanhangá, embaixo de uma pedra, no alto de uma floresta. Foi uma tarde de cantos, e a força das vozes deles era algo impressionante. Não restavam dúvidas: estávamos lidando com algo realmente poderoso.

No dia 3 de janeiro deste ano, era chegado o momento de visitarmos a aldeia. Eu e um time de quase dez profissionais, incluindo equipe de vídeo e fotografia, iniciamos uma odisseia até lá. Cada um estava em um ponto do Brasil, em função do feriado de Ano Novo. Nos encontramos em Brasília, fomos para Rio Branco e, posteriormente, para Cruzeiro do Sul, onde nos encontramos com Mariazinha Yawanawa, a primeira cacique mulher do Brasil. Ela nos disse que os índios costumam pedir, em ritual com o vento, que boas pessoas cheguem até o grupo. Ficamos felizes em saber que a nossa visita poderia fazer parte disso.

No dia seguinte, começamos a nossa viagem pelo Rio Gregório, a bordo das canoas. Na bagagem, havia equipamentos, tecidos, combustíveis e comida, o que deixou as embarcações muito pesadas. Por causa disso, o trajeto, que era para ser feito em sete horas, acabou levando doze, frustrando os nossos planos de chegar à aldeia ainda sob a luz do dia.

O rio não é muito fundo e é cheio de troncos de árvores que desabam sobre ele. Por isso, as embarcações navegam desviando desses obstáculos naturais. Foi nesse momento que descobrimos que é normal os barcos virarem. Por sorte, isso não aconteceu. Mas a verdade é que, até anoitecer, não sentimos o tempo passar. As enormes árvores e os tucanos que cercavam nosso caminho prendiam a nossa atenção como imã.

Quando nos estabelecemos na aldeia, observamos como a produção com miçangas dá, de fato, independência às mulheres. Elas compram a matéria-prima em uma espécie de mercado que chamam de “cantina”. As peças finalizadas valem dinheiro e podem ser trocadas ali mesmo por alimento, por exemplo.

Mas, até para produzi-las, elas precisam revindicar sua liberdade. Conhecemos a história de uma índia cujo marido não a deixava trabalhar com as miçangas. Ela, então, começou a fazer às escondidas e, quando conseguiu finalmente juntar dinheiro com a produção, comprou uma espingarda para ele usar na caça. Com esse ato, mostrou como todo o trabalho é em prol da família inteira.

Na nossa bagagem, também estavam peças-piloto, para que elas pudessem ver como suas criações seriam aplicadas na coleção. Cada trabalho reconhecido era devidamente comemorado e, desse encontro, já surgiram ideias para parcerias futuras.  Todas estavam muito felizes com as trocas que estávamos fazendo. Elas também querem experimentar o novo.

Dizem que ninguém volta igual da floresta. Não mesmo. No retorno pelo Rio Gregório, perdemos a hélice do barco duas vezes, ficamos à deriva, mas nada nos abalou. A vida tinha ganhado um outro sentido ali.”

Incrível, né? Um beijo enorme pra Ana, Lara, Carlos Mach, Taci Abreu e tanta gente querida do nosso time que passou por essa experiência única pra dar vida a essa história tão linda! E claro, nosso eterno amor as mulheres Yawanawa, segue elas pra acompanhar todas as coisas incríveis que elas criam e dão vida. 
 
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